sábado, 15 de dezembro de 2007

Respeito por Aqueles que Distribuem o Santo Nome




O Senhor Krsna se revela através de Seus santos nomes para aquele que honra e obedece a Seus agentes.

A cidade celestial de Indrapuri é a residência de Indra, um dos devas que administram os diferentes setores do universo como um serviço ao Senhor Supremo, Krsna. Em Indrapuri, a essência da fumaça do incenso aguru se mistura com a fragrância das flores que decoram os jardins e corpos dos residentes da cidade. Cordões de pérolas naturais adornam as construções, e bancos feitos de diamantes e pedras corais são dispostos ao longo das impecáveis rodovias. Indrapuri é livre do pecado, da ardileza, da luxúria, do orgulho, da inveja, da violência e de outros frutos do falso orgulho.

A esposa de Indra, Saci, senta-se a seu lado em seu trono, enquanto dançarinas e cantores desse paraíso material mantêm os dois entretidos com músicas que glorificam Krsna. Uma sombrinha branca, que brilha como a lua, é o dossel real de Indra.

Embora Indra seja um poderoso deva, seus inimigos, os asuras (demônios), foram capazes, certa vez, de atacar seu reino paradisíaco e de ferir Indra, bem como seus associados. Por ter desrespeitado seu mestre espiritual, Indra se tornou vulnerável.

Uma vez, quando estava desfrutando de sua riqueza e poder sentado em seu trono, Indra viu Brhaspati, seu guru, entrar no salão do palácio. De acordo com a etiqueta, Indra deveria ter ficado de pé para recebê-lo, oferecer-lhe um acento, palavras agradáveis e algo para beber. Mas, porque Indra via Brhaspati diariamente, ele o ignorou. Ofendido, Brhaspati foi embora.

Indra rapidamente deu conta de seu descuido e tomou as providências para se retificar – ele passou a procurar por seu guru para cair a seus pés mostrando arrependimento. Brhaspati, todavia, querendo ensinar a Indra uma lição, tornou-se invisível. Como Indra perdera as bênçãos de Brhaspati, forças demoníacas foram capazes de atacar Indrapuri, ferindo Indra e outros.

A Importância do Mestre Espiritual

Assim como Indra, todo ser humano precisa da graça do mestre espiritual. Talvez não tenhamos que confrontar inimigos como os de Indra, mas certamente precisamos de proteção uma vez que temos uma grande missão na forma de vida humana: avançar espiritualmente. “Demônios”, tais como nossos desejos por coisas materiais, constantemente buscam nossa destruição.

Aqueles entre nós que aceitaram a consciência de Krsna querem alcançar um reino muito superior ao de Indrapuri. Temos como meta o mundo espiritual, o reino de Deus, Krsna. Nós sabemos que o prazer decorrente do serviço a Krsna em Sua morada é superior a qualquer coisa que Indra possa desfrutar. Nossa súplica para que recebamos permissão de participar de tal serviço devocional é o mantra Hare Krsna, Hare Krsna, Krsna Krsna, Hare Hare / Hare Rama, Hare Rama, Rama Rama, Hare Hare.

Só poderemos entender o cantar de Hare Krsna quando aprendermos a razão da vida através de um guru fidedigno. O ser humano, em geral, fica perdido ao ver a gigantesca criação que lhe rodeia. Apenas com o uso da observação e de experiências, pessoas conseguem, às vezes, entender que um ser inteligente criou tudo isto para algum propósito. A natureza do criador, o propósito de Sua criação, e os meios para se harmonizar com esse propósito, entretanto, foge de suas capacidades. Tais tópicos devem ser revelados a partir de pessoas acima da criação: o criador ou o Seu representante. Assim, para entender esses tópicos, todos precisam de um guru. Todos os gurus também têm gurus, sendo que o Senhor em pessoa é o guru original. O princípio de se aceitar orientação pessoal na missão da vida é tão importante que quando Krsna nasce Ele também aceita um guru para estabelecer o exemplo.

Quando encontramos um guru genuíno, que vem de uma corrente de mestres e discípulos que tem início com o próprio Senhor, aprendemos que a criação tem por objetivo ajudar as almas caídas a esgotarem seus desejos materiais e, por fim, retornarem a posição espiritual original que lhes cabe. Um guru genuíno também ensina que o principal meio de se alcançar o propósito supremo da existência – união amorosa com Krsna – é o cantar de Seus santos nomes, especialmente através do maha-mantra: Hare Krsna, Hare Krsna, Krsna Krsna, Hare Hare / Hare Rama, Hare Rama, Rama Rama, Hare Hare.

Iniciação e Treinamento Espiritual

Mesmo para se saber do nome do Senhor é preciso ter algum contato com um guru. Então, inquestionavelmente , qualquer um que decida dedicar sua vida a Krsna precisará de treinamento contínuo de um guru. Da mesma forma que um jovem casal formaliza sua relação com o casamento, ou um estudante oficialmente se matricula em uma escola, uma pessoa que trata com seriedade o amor e a rendição a Krsna compromete-se de maneira formal. Quando tornamo-nos oficialmente iniciados dentro de uma linhagem de mestres e discípulos, o guru que nos iniciou, os vários mestres anteriores e o próprio Senhor se comprometem a nos auxiliarem rumo à liberação de todos os desejos materiais. Na vida comum, quando a secretaria de uma escola aceita um estudante, todos os professores e funcionários, até o diretor-proprietá rio, asseguram dar o melhor de si para garantir a educação e graduação do aluno. Similarmente, um discípulo sincero em uma escola transcendentalista certamente alcançará sucesso espiritual. No momento da iniciação, o guru “planta a semente da devoção” e entrega o santo nome pedindo que Krsna se manifeste no cantar daquele novo iniciado.

Krsna não irá se manifestar no cantar daquele que desrespeita o guru – tanto o guru do qual se conheceu o cantar quanto o guru do qual se recebeu a iniciação formal para a vida devocional. Mesmo em escolas comuns, estudantes que não demonstram bons modos para com seus professores podem ser negligenciados ou até mesmo expulsos. Quanto descontentamento sente o Senhor quando alguém desrespeita um mestre espiritual!

A ofensa ao santo nome de desrespeitar ou desobedecer ao guru vem da idéia equivocada de considerar o guru como uma pessoa comum. Tudo bem que o guru parece muitas vezes ser semelhante a nós, aparecendo em um corpo material constituído dos mesmos ingredientes que constituem todos os demais corpos. Mas o guru é o representante de Deus, é realizado na ciência da devoção e, portanto, não é uma pessoa comum. Embora oficiais da polícia sejam seres humanos como eu e você, nós os tratamos com respeito diferenciado uma vez que eles representam o governo e conhecem as leis. Respeitamos um professor como um representante da escola e como uma autoridade em determinado conhecimento que não temos ou que temos em menor quantidade ou realização. Por tais exemplos, podemos facilmente entender porque se deve tratar o guru, como nos é ensinado, como se fosse Deus: o guru é o representante de Deus e nossa ponte até Ele.

Gratidão e Respeito

As escrituras listam maneiras específicas pelas quais os discípulos devem demonstrar respeito para com o guru. Eles devem, por exemplo, borrifar sobre suas cabeças a água que banhou os pés do guru e, ao verem o guru, devem oferecer reverências caindo ao chão. Não devem usar a cama do guru, seu acento, sapatos ou meios de transporte pessoais, adorar outras pessoas na presença do guru, ou agir ou falar de maneira que desagrade o guru.

Deve-se primeiro adorar o guru e, então, pedir permissão para adorar Krsna. Portanto, juntamente com a ilustração ou deidade de Krsna, um discípulo deve manter a foto de seu guru. O incenso, as flores, e tudo o mais, devem ser oferecidos primeiramente ao guru e então a Krsna. Mesmo enquanto se canta o santo nome de Krsna, deve-se manter o guru na mente, plenamente grato pelo presente do maha-mantra.

Espera-se que o discípulo não seja apenas respeitoso, mas também obediente. As instruções do guru – sejam pessoais ou escritas – devem ser a vida e alma do discípulo. O guru frequentemente oferece instruções gerais e individuais. Algumas podem ser aplicadas em todos os tempos, locais e circunstâncias, como a instrução de sempre se lembrar de Krsna e nunca se esquecer de Krsna. Algumas devem ser aplicadas de diferentes maneiras e níveis, dependendo da situação. E nem tudo o que o guru diz constitui uma ordem; ele também pode oferecer diretrizes gerais.

O discípulo deve evitar tanto ser negligente com as regras quanto segui-las de forma cega e fanática. O segredo é distinguir entre princípios internos e detalhes externos. Krsna, enfim, diz que o discípulo deve fazer perguntas relevantes ao guru e seguir o exemplo prático dos santos, ou sadhus.

Prevenindo-se Contra Farsantes

Algumas pessoas talvez pensem que as regras escriturais referentes ao respeito que deve ser mostrado ao guru são excessivas. Todavia, respeito por uma pessoa que representa ou fala por um poder superior é sinal de cultura e civilização. As normas de nossa sociedade moderna, por exemplo, exigem que respeitemos nosso empregador, o professor ou um juiz de direito.

Infelizmente, sempre haverá pessoas buscando por respeito e prestígio se auto-proclamando autoridades espirituais, da mesma forma que há criminosos que se vestem como policiais, e empresas e escolas que enganam pessoas inocentes roubando seu dinheiro através de ardilosas trapaças. Assim, um discípulo precavido deveria analisar cuidadosamente se determinado guru é discípulo de uma linhagem autorizada de mestres e discípulos da mesma forma que uma mãe examina as credenciais de uma escola antes de matricular seus filhos. Uma das principais qualificações que um guru deve apresentar é conhecimento acerca de Krsna – não apenas conhecimento teórico, mas conhecimento realizado demonstrado através da dedicação de sua vida para o prazer do Senhor.

De maneira geral, quando um guru autêntico é encontrado, estabelece-se uma relação eterna. De qualquer maneira, um guru é obrigado a abandonar um discípulo que por repetidas vezes cometa falhas graves no caminho da vida espiritual, e um discípulo deve rejeitar um guru caído.

Krsna é um Presente dado pelo Guru

Se comprazemos nosso mestre espiritual, Krsna, então, na forma de Seu santo nome, rapidamente se revela a nós, mesmo que não tenhamos outras qualificações. Esse princípio existe mesmo em relações materiais comuns. Um professor influente dentro de uma universidade, por exemplo, percebendo que certo estudante parece ter um futuro promissor, recomenda o jovem a um programa – de estudo no exterior, por exemplo – que o estudante não teria acesso de maneira geral. A instituição irá respaldar a recomendação do professor. Krsna reciproca de forma similar Seus queridos devotos. Se o representante de Krsna está satisfeito com nosso serviço, Krsna nos aceita apesar de nossos defeitos. Assim, os obstáculos ao nosso cantar são removidos, e nosso progresso se faz de forma certa e segura.
por Urmila Devi Dasi (ACBSP)
Tradução por Bhagavan dasa (DvS)

Recebendo e Compartilhando o Santo Nome



As glórias do nome do Senhor é um tema confidencial que deve ser transmitido com grande zelo.

Dentre os vários presentes que ganhei em meu aniversário de seis anos estavam diversos pares de meias vermelhas. Como a maioria das crianças, eu preferia brinquedos a roupas – especialmente roupas repetidas. Então eu fui emburrada para o meu quarto. Como qualquer outra mãe faria, minha mãe disse que era para eu voltar para a sala, sorrir e dizer “obrigada” - eu gostando ou não dos presentes.

Nós frequentemente demonstramos o quanto algo vale para nós pela maneira com que cuidadamos de tal coisa. Se eu tenho respeito pelo presente ou por quem me deu o presente, eu coloco o objeto em uma posição de prestígio ou o dou para alguém de que gosto muito. Dar o que ganhei para uma pessoa indigna ou jogar de qualquer maneira o presente dentro do guarda-roupa demonstra minha falta de apreço pelo presente e pode trazer muito desprazer para quem me deu.

Há um exemplo disso nas escrituras. Quando o sábio Durvasa estava caminhando pela rua, ele viu Indra, o administrador- chefe dos planetas celestiais, passando montado em seu elefante. Durvasa, com muita satisfação, ofereceu a Indra uma guirlanda de seu próprio pescoço. Mas o orgulhoso Indra pegou a guirlanda e, sem nenhum respeito por Durvasa Muni, colocou o ornamento na presa de seu elefante. Sendo um animal, o elefante não podia entender o valor da guirlanda e a jogou no chão pisando por cima dela enquanto continuava a caminhar. Presenciando tal comportamento ofensivo, Durvasa Muni amaldiçoou Indra a se tornar muito pobre. (Srimad-Bhagavatam 8.5.15-16, Significado) .

O fato de Indra desejar compartilhar um presente é louvável. Dar em caridade nossas posses, sejam elas conquistadas ou recebidas, é purificador mesmo para os santos. O problema do ato de Indra é que ele deu em caridade a um animal. Krsna ensina no Bhagavad-gita que caridade deve ser dada a uma pessoa digna, em local e hora apropriados e sem expectativa de recompensa. Se a caridade é dada a alguém que fará mau uso dela, ou se é dada de forma desrespeitosa, aquele que faz a caridade, ao invés de avançar material ou espiritualmente, se torna envolvido com a ilusão da ignorância.

O maior tesouro de todos é o santo nome do Senhor, Krsna. É mais precioso que a jóia cintamani, que pode transformar ferro em ouro. O fato de termos recebido o santo nome demonstra o amor por parte daqueles que nos deram e também nossa determinação em conhecer e amar o Senhor Supremo. Conhecer a glória, o poder e o amor do maha-mantra – Hare Krsna, Hare Krsna, Krsna Krsna, Hare Hare / Hare Rama, Hare Rama, Rama Rama, Hare Hare – é conhecer a mais íntima e essencial verdade. Tendo o precioso santo nome, certamente devemos dá-lo em caridade.

De qualquer forma, tal tesouro – o nome de Krsna, que é idêntico a Ele –, manifesta sua paz e prazer em plenitude apenas para aquele que o honra. Uma das principais maneiras de honrar o nome é sendo prudente ao revelar detalhes das glórias do nome. Se falamos da doçura e grandeza do nome para alguém que se tornará ofensor, também fazemos parte de suas ofensas, e nosso avanço espiritual é comprometido. Jesus disse: “Não deis aos cães o que é santo, nem lanceis aos porcos as vossas pérolas, para que não suceda que eles as calquem com os seus pés, e que, voltando-se contra vós, vos dilacerem” (Mateus 7:6). De forma similar, Krsna diz a Arjuna: “Este conhecimento confidencial [render-se amorosamente a Krsna] jamais pode ser explicado àqueles que não são austeros, nem devotados, nem se ocupam em serviço devocional, e tampouco a alguém que tenha inveja de Mim”. (Bhagavad-gita 18.67).

Dando o Santo Nome

A solução seria manter o conhecimento espiritual apenas conosco? Não. Se por medo de darmos o santo nome para pessoas invejosas nós deixamos de compartilhar nossa riqueza espiritual, tornamo-nos igualmente invejosos. Srila Prabhupada disse a uma de suas discipular, uma excepcional cozinheira, que, para evitar ser alvo de inveja, ela deveria ensinar suas habilidades a outros. Uma pessoa invejosa ou quer tirar de uma pessoa o que ela tem ou quer impedir previamente que ela tenha acesso a uma de suas próprias opulências. Ao contrário, devemos desejar que os outros se tornem tão espiritualmente ricos e afortunados quanto nós, ou mesmo mais que nós. Além do que, ao dar em caridade a consciência de Krsna a uma pessoa digna, comprazemos Krsna e, consequentemente, aumentamos nosso prazer no processo do cantar.

Compartilhar o santo nome e a estonteante beleza das atividades, qualidades e formas de Krsna com uma pessoa piedosa e sincera traz grande prazer e satisfação. A troca de conhecimento e júbilo tanto entre aqueles que compartilham o entendimento do serviço devocional quanto entre Krsna e tais pessoas é tão puro e emocionante que é praticamente indescritível. Krsna diz: “Para aquele que explica aos devotos este segredo supremo, o serviço devocional puro está garantido, e, no final, ele voltará a Mim. Não me há neste mundo servo mais querido, nem nunca jamais haverá”. (Bhagavad-gita 18.68-69).

Como discernir onde e com quem compartilhar o nome? O Senhor pessoalmente, em Seu nascimento como Caitanya Mahaprabhu, cantaria nas vias públicas com Seus devotos, deixando ao encargo dos ouvintes tirarem ou não proveito daquele cantar. Ele, todavia, era muito cuidadoso quanto a discutir detalhes íntimos da vida espiritual com aqueles que tinham a tendência a criticar. Antes de compartilharmos algo além do som do santo nome com alguém, devemos tentar encontrar ao menos uma fagulha de fé, pois fé é o único verdadeiro pré-requisito para se começar a cantar o nome de Krsna.

Por muitos anos, um grupo de devotos de Krsna viajou ao redor dos Estados Unidos com dois sannyasis – Visnujana Svami e Tamal Krsna Gosvami. Visnujana Svami cantava docemente o maha-mantra Hare Krsna enquanto devotos distribuíam gratuitamente pratos de prasadam. Tamal Krsna Gosvami disse a seu amigo Ravindra Svarupa Dasa que ele deveria abordar as pessoas que estavam comendo e ouvindo e perguntar: “Você gosta da comida e da música?”. Se eles expressassem algum entusiasmo, ele deveria apresentar-lhes os livros de Prabhupada ou discutir filosofia com eles. Se eles tivessem pouca ou nenhuma atração pelo cantar e pela comida, ele não deveria investir muito tempo neles.

Em outras palavras, a fé das pessoas pode ser vista pela avidez com que buscam Krsna. Jesus fala novamente das glórias do Senhor na metáfora de uma pérola: “O reino dos céus é também semelhante a um mercador que busca pérolas preciosas, e, tendo encontrado uma de grande valor, vai, vende tudo o que tem e a compra” (Mateus 13:45). Rupa Gosvami, de forma similar, explica: “O serviço devocional puro em consciência de Krsna pode ser obtido unicamente se sendo pago um preço: intenso desejo em obtê-lo. Se tal serviço se encontra a venda em algum lugar, deve-se comprá-lo de imediato”. (Padyavali 14)

Descriminação Atenciosa

Mas a descriminação das pessoas com as quais se pretende compartilhar a verdade é algo mais complexo do que as duas opções “com fé” e “sem fé”. A verdade é que há poucas pessoas com as quais se pode compartilhar tudo ou com as quais não se pode compartilhar nada. O segredo para se evitar a ofensa de instruir um infiel, e ao mesmo tempo beneficiar a nós e aos outros, é desenvolver um sofisticado julgamento quanto à conveniência de cada caso. Krsna dá quatro diretrizes para a comunicação espiritual: a mensagem deve ser verdadeira, prazerosa, embasada na autoridade das escrituras e benéfica para ambas as partes. Para que uma mensagem seja benéfica, precisa-se determinar sua conveniência. Muitas verdades da vida espiritual, por exemplo, parecem amargas para pessoas com apegos materiais. A realização transcendental não envolve apenas a empolgante e maravilhosa revelação dos nomes, formas e atividades Krsna, senão que também inclui o conhecimento de que, enquanto separados de Krsna, estamos voluntariamente vivendo a ilusão do egoísmo e da terrível cobiça. Para progredirmos na compreensão de nossa natureza eterna, devemos encarar a desagradável realidade de que tentando desfrutar de um corpo material miserável e temporário é, no mínimo, algo um tanto constrangedor para nós almas.

Contrato Professor-Aluno

Embora a compreensão da desconfortável posição de uma alma no mundo material seja, sem dúvidas, benéfica a todos, deve ser feito uma espécie de contrato antes deste conhecimento ser fornecido. De outra forma, se o interlocutor se torna irado, não há nenhum benefício, além de poder haver prejuízo para ele e também para o transmissor da mensagem. Assim, Prabhupada diz: “Ninguém deve falar de modo que agite a mente de outros. Claro que ao falar, um professor pode instruir seus alunos dizendo-lhes a verdade, mas esse mesmo professor não precisa se dirigir àqueles que não são seus alunos com palavras que acaso venham a agitar suas mentes”. Em outras palavras, não importando quão verdadeira seja nossa instrução, a pessoa que irá nos ouvir deve, formal ou informalmente, ter nos aceitado como professores para que a instrução tenha verdadeiro benefício. Naturalmente, falar de forma agradável também é importante. Nossa apresentação deve ser civilizada e educada.

O princípio de que nossos ouvintes devem ser, de alguma forma, nossos estudantes antes que possamos falar-lhes verdades desagradáveis ou tópicos avançados continua válido quando compartilhamos a consciência de Krsna com pessoas com fé no processo. Leitores deste artigo, por exemplo, aceitaram ouvir algo de mim. Quando alguém dá uma palestra, a audiência aceita, ao menos temporariamente, a posição de alunos. O mesmo acontece quando alguém pede aconselhamento: a pessoa se aproxima de nós nos aceitando como alguma forma de autoridade, dando-nos o direito de dizer algo para o seu benefício, mesmo que possa ser algo desagradável a princípio. Sem tal contrato, formal ou presumido, nós não temos permissão de comunicar qualquer coisa em nome da verdade. Fazê-lo, no que se refere a tópicos espirituais, é ofender o nome, e se feito com um devoto de Krsna, pode também ser uma ofensa ao devoto do Senhor.

Instrução aos Gurus

Em seu livro Harinama Cintamani, Bhaktivinoda Thakura explica a ofensa de ensinar o santo nome a pessoas infiéis voltando-se especialmente aos gurus. Seja iniciando discípulos no cantar ou mantendo alguma relação formal como mestre espiritual instrutor, há, algumas vezes, a tentação de aceitar discípulos com o fim de prestígio e riqueza pessoais. Tal problema acontece em escolas comuns. Algumas universidades aceitam estudante não apenas por suas qualificações acadêmicas, mas porque eles são de famílias que levarão dinheiro e nome para a instituição. Não é nenhum segredo que mesmo as universidades mais seletivas dão preferência para tais “estudantes de sangue azul”. Eles declaram abertamente que favorecer tais estudantes abastados ajuda na redução do custo dos estudos de outros estudantes.

Talvez tal política faça sentido em termos funcionais e financeiros para um curso de engenharia ou direito, mas vai de encontro ao desejo de Krsna e a todo o humor do serviço devocional a Ele. Um guru pode ter muitos problemas se considerar a qualificação de um discípulo por algo além de sua fé.

Algumas vezes, claro, nós, seres imperfeitos, talvez sejamos enganados por alguém que demonstra falso interesse pelo serviço a Krsna. Um misericordioso devoto de Krsna deseja dar chance a todos, abanando uma pequena fagulha de curiosidade para que se torne uma fogueira de amor devocional. Se, por acaso, aceitamos um estudante ou discípulo que, posteriormente, torne-se um blasfemo, devemos publicamente renunciar tal pessoa para que nenhum de nós dois perca o abrigo do Senhor.

Se queremos que nosso cantar de Hare Krsna, Hare Krsna, Krsna Krsna, Hare Hare / Hare Rama, Hare Rama, Rama Rama, Hare Hare manifeste todo o seu potencial, devemos tratar o santo nome e toda prática e conhecimento espirituais com amor e zelo. Honramos a Verdade Absoluta por darmos pouca oportunidade para que os ofensores encontrarem falhas, ensinando apenas o que vá beneficiar pessoas fiéis que aceitaram ouvir o conhecimento de nós, e sempre encontrando grande satisfação e bem-aventuranç a em compartilhar o santo nome com aqueles que anseiam conhecer seus mistérios.


por Urmila Devi Dasi (ACBSP)
Tradução por Bhagavan dasa (DvS)

segunda-feira, 10 de dezembro de 2007

Desejo e Concentração





Cantar o nome do Senhor com plena atenção remove os obstáculos no caminho rumo ao cantar puro.

Um dia, sentei-me com um grupo de amigos e ficamos conversando sobre como foi o dia de cada um. Algumas pessoas estavam também conversando perto de nós, e um dos meus amigos pensou ter ouvido seu nome.

“Você me chamou?”, ele perguntou.

“Não, dissemos outra coisa”, eles responderam.

Desapontado, voltou para a nossa conversa.

Quando estamos em uma sala com muitas pessoas, a conversa dos outros se torna um zunido de fundo, mas se o nosso nome é pronunciado, de alguma forma nós distinguimos esse chamado e nos tornamos aptos a ouvi-lo.

Krsna também fica interessado quando nós chamamos por Ele.

“Ah, você quer falar coMigo?”, Ele pergunta.

Mas se, de fato, nós queríamos ter falado outra coisa, ou se falamos o Seu nome de qualquer jeito, Ele esperará até que realmente queiramos falar com Ele. Daí Prabhupada escrever e falar sobre cantar o mantra Hare Krsna com qualidade. Fazer o voto de cantar certo número de voltas do mantra diariamente é certamente algo válido – o simples fato de fazer tal voto demonstra sinceridade espiritual – mas a qualidade também deve estar presente. Para principiantes, cumprir nossa cota talvez já seja algo suficientemente desafiador, mas, ainda assim, devemos nos esforçar para que o cantar seja como um verdadeiro chamado pelo Senhor.

Quando cantamos com atenção e com uma postura de rendição e devoção, Krsna naturalmente reciproca nossa postura. Então, rapidamente superamos todos os demais obstáculos no cantar, na vida espiritual em geral, e na nossa meta de amor perfeito por Deus. Mas se nosso cantar for desatento, todos os obstáculos permanecerão – isso se não aumentarem.

Por que o cantar atento é o ponto chave para nos tornarmos livres de todas as outras ofensas ao nome? Quando cantamos com atenção, estamos em contato com Krsna, que irá nos mostrar, por exemplo, como nossa relação com os devotos pode estar abaixo do que Ele deseja.

A causa primária da desatenção é a distração, ou ter interesse em algo além do nome que estamos recitando. Esse interesse pode ser por riqueza, sucesso material, o sexo oposto, prestígio social, e várias outras coisas. Cantar com distração é como perguntar algo a alguém e então ficar pensando em outras coisas, ou ficar olhando pela janela, enquanto a pessoa lhe responde.

Além da distração básica, o cantar é desatento quando a pessoa é preguiçosa – uma mente lenta, assim como a mente agitada, está sempre impedindo o foco no nome. Podemos também simplesmente ser indiferentes ao nome, o que, de um ponto de vista espiritual, é loucura – como uma pessoa sã pode não dar valor ao santo nome?

Remédios Contra o Cantar Desatento

Para cantarmos com apuro e atenção, devemos primeiramente estar atentos a completar um determinado número de recitações do mantra Hare Krsna diariamente. Todo devoto iniciado na Sociedade Internacional para a Consciência de Krsna deve cantar o mantra, pelo menos, 1728 vezes ao dia (16 voltas de um cordão de 108 contas), mas principiantes podem começar com qualquer número, o importante é que o cantar seja constante. Constância, serviço regular e estável, é algo apreciado em qualquer setor da sociedade; na vida espiritual, é sinal de sinceridade e devoção pelo processo.

Para cantar plenamente concentrado, o melhor é cantar em um lugar tranqüilo. Os melhores lugares são aqueles protegidos das influências materiais. Pode-se cantar em um templo, um local sagrado dos passatempos de Krsna, ou em qualquer lugar silencioso e reservado. O movimento Hare Krsna tem muitos templos para educação e adoração pública. Na Índia, numerosos templos tradicionais são dedicados ao Senhor Krsna, muitos desses nos locais onde Ele apareceu para exibir Seus passatempos divinos. Se a deidade de Krsna e o prazer de Krsna são o centro, de fato, nossa própria casa pode ser um templo.

Também é benéfico se cantar com pessoas avançadas em conhecimento espiritual. Nossa preguiça não terá espaço se nossos amigos forem pessoas que buscam ansiosamente absorverem suas consciência no cantar, não perdendo tempo com diversões inúteis. Naturalmente, pela associação deles, também desenvolveremos um senso de urgência e determinação.

É favorável que se cante em um horário calmo (o começo da manhã é o ideal). A postura interna de se implorar pela misericórdia de Krsna é também essencial. Tais medicamentos irão rapidamente livrar-nos da insanidade de não darmos atenção ao santo nome.

O Desejo de Ter Milhões de Bocas

Para lidarmos com a raiz do problema da desatenção – interesse por algo além de Krsna e de Seu nome – é interessante tirarmos manhãs, tardes ou dias para não fazermos nada além de cantar. Se em um dia sagrado, como o Ekadasi ou o aniversário de Krsna, abstivermo-nos de comer, dormir e de outros afazes ordinários, e simplesmente cantarmos por horas a fio, sem interrupção, nossa mente irá gradualmente encontrar prazer unicamente em Krsna. Tais intensos momentos de completa absorção irão ajudar em nossa concentração durante os dias do cantar rotineiro.

Tendo superado a distração, a preguiça e a desatenção, cantaremos, como Prabhupada diz, da mesma forma que uma criança chama por sua mãe: com grande intensidade e desejo, e com a certeza de que não existe outro abrigo.

Quando o nosso cantar tiver toda a atenção de nossa mente e de nosso coração, nunca mais acharemos tal prática tediosa, nem precisaremos dedicar nossa atenção a evitar os obstáculos no caminho da perfeição - os obstáculos já estarão no encostamento, tornando nosso caminho fácil e prazeroso. Então, como o grande mestre Rupa Gosvami, diremos: “Eu não posso mensurar quanto de néctar as duas sílabas ‘Krs-na’ produzem. Quando o santo nome de Krsna é cantado, ele parece dançar sobre a língua. Passamos então a desejar ter muitas e muitas bocas. Quando o nome entra em nossos ouvidos, desejamos ter muitos milhões de ouvidos. E quando o santo nome dança no pátio do coração, ele conquista as atividades da mente, e todos os sentidos se tornam apáticos”.

(extra)

As Glórias do Cantar

“Não há nenhum voto como o voto de se cantar o santo nome, nenhum conhecimento superior, nem nenhuma meditação à altura. Esta prática traz o maior benefício. Nenhuma penitência pode se igualar ao cantar, e nada é tão poderoso quanto o santo nome”.

“Cantar é o mais piedoso dos atos piedosos, e o refúgio supremo. Nem mesmo as palavras dos Vedas são capazes de descrever a magnitude de tal processo. Cantar é o caminho mais elevado ruma à liberação, à paz e à vida eterna. É o pináculo da devoção, o prazer original do coração, e a melhor forma de se lembrar do Senhor Supremo. O santo nome apareceu para o benefício das entidades vivas. O santo nome é o senhor e mestre, o supremo objeto de adoração e o guia e mentor de toda e cada entidade viva”.

“Independente da influência de Kali-yuga, todo aquele que continuamente canta o santo nome do Senhor Krsna, mesmo enquanto dorme, pode facilmente realizar que o nome é uma manifestação direta do Senhor Krsna”.

- Srila Bhaktivinoda Thakura, Saranagati (citações do Agni Purana)


p/ Urmila Devi Dasi (ACBSP)
Tradução por Bhagavan dasa (DvS)

sábado, 8 de dezembro de 2007

Não espere pelo Papai Noel !




Você tem muito mais chance de acertar no presente se tentar alcançá-lo pessoalmente. Sonhos não duram mais que uma noite, quiçá, uma vida. Ao invés de ficar desejando coisas materiais, que são frágeis e passageiras, invista naquilo que é eterno e lhe trará paz, saúde, prosperidade, amor, fé e confiança no Senhor Supremo. Invista na sua auto-realização!
A forma humana de vida é a única que proporciona esta possibilidade, a possibilidade de transcender a matéria, de voltar ao lar original, onde há paz e felicidade eterna.
Reflita sobre a transitoriedade das coisas deste mundo, busque o conhecimento verdadeiro, procure um mestre fidedigno, renda-se a ele com humildade e vontade de alcançar a auto-realização. Então, ao perceber o seu esforço sincero, a Suprema Personalidade de Deus mostrará o caminho seguro a ser seguido, o seu maior presente !
Krishna Mayi D.D

quarta-feira, 5 de dezembro de 2007

Conversão Harmoniosa


“Não se trata de conversão do Cristianismo para o Hinduísmo. A conversão acontece no sentido de levarmos a classe de homens ateístas a aceitarem a consciência de Deus”. (Carta de Srila Prabhupada de 26 de junho de 1976)
Em uma reunião de família, há algum tempo atrás, eu comecei a falar sobre a consciência de Krsna e seu valor em minha vida. Para minha família mais próxima – pais e irmãos – esse tipo de conversa é algo com o que já estão acostumados. Mas para parentes que vejo com menor freqüência, tal conversa os conduz a um passado longínquo, no tempo da minha “conversão”, como eles dizem.
Aparentemente, meu tio Sidney tomou como uma afronta pessoal a maior parte do que eu dizia.
“Você está tentando nos converter?”, ele disse como se há muito tempo estivesse se segurando - ele sorria, mas seus lábios estavam pálidos de raiva.
“Convertê-lo? Eu não sabia que você tinha religião”.
“Eu sou Judeu!”, ele disse incrédulo, como se aquela resposta solucionasse todas as questões. “Certo, eu não acredito em Deus, mas eu sou Judeu”.
Silêncio constrangedor.
“Bom, ao menos eu nasci Judeu, e você também”.
“Eu também nasci bebê”, eu contestei, tentando levar um pouco de humor para a discussão. “Mas isso mudou, não? Só porque você nasceu em uma religião não faz de você um praticante”.
“E...?”
“Por isso, eu falar com entusiasmo sobre a tradição religiosa que adotei, a consciência de Krsna, não desafia de forma alguma a relação que você tem com a religião de seu nascimento”.
Nós deixamos aquele assunto para lá; mas quando eu voltei para casa aquela noite, eu fiquei pensando sobre a perspectiva de meu tio. Por que ele se considera Judeu, mesmo não praticando a religião? Por que minha conversão para a consciência de Krsna era desconfortável para ele? E será que eu estava mesmo tentando convertê-lo? Como eu poderia explicar para ele que minha “conversão”, como ele via, não se tratava de um movimento horizontal do ocidente para o oriente, mas, sim, um movimento vertical, da terra firme para o caminho da transcendência?
Exclusivismo Religioso
A tensão de meu tio em relação à consciência de Krsna se baseia no exclusivismo religioso, a visão que separa as religiões de acordo com o fundador, as escrituras e as diferenças histórico-geográficas. Por causa dessas diferenças, os adeptos de algumas religiões acreditam que apenas o seu processo é efetivo, com todos os outros apresentando algum grau de debilidade. Assim, muitas religiões, especialmente aqueles originadas no ocidente, têm enraizadas a noção de serem a religião verdadeira. Acreditam que apenas eles estão trilhando o exclusivo caminho para Deus e a salvação.
Mas o mundo moderno vem refutando tal visão. Pela primeira vez na história registrada, estamos nos tornando rapidamente uma comunidade global, o que naturalmente nos conduz ao pluralismo religioso – compreensão verdadeira das religiões de nossos vizinhos e como elas se relacionam com nossa gama pessoal de crenças.
A visão pluralista se torna algo mais logicamente plausível quando reconhecemos que todas as tradições religiosas genuínas acreditam em uma verdade transcendental (frequentemente chamada de Deus) e em nossa obrigação de agirmos em harmonia com essa verdade.
Mas o exclusivismo persiste. De onde ele vem? Qual sua origem? Psicologicamente, sua origem pode ser facilmente traçada a partir do desejo de ser considerado especial dentro do cosmo, a necessidade de se situar em algo exclusivo.
Em relação às religiões originadas no Oriente Médio, acadêmicos atribuem a idéia do exclusivismo como originada no exílio dos Judeus para a Babilônia, quando se voltaram pela primeira vez ao monoteísmo e desenvolveram a tradição de não se misturarem a outras nações. Mas não diga isso ao meu tio. As leis Mosaicas são vistas como a única revelação, e associam os Judeus a Deus de forma que nenhuma outra pessoa teria relação com Ele. Isso faz deles “o povo escolhido”. A crença dos Judeus em um “Deus exclusivo” se estendeu a seu pupilo, o cristianismo, com o “Jesus é o único filho de Deus”. Tendo nascido do fértil solo exclusivista do Judaísmo, a tradição cristã clama que só se pode alcançar o Supremo através de Jesus, crença que inspira as atividades missionárias da igreja por todo o mundo.
Mas se pensarmos sobre isso profundamente, realizaremos que todos somos partes do mesmo organismo – Deus – e nossa exclusividade se baseia exatamente em como, de acordo com nossa maquiagem psicológica individual, iremos servir a Ele para que desenvolvamos nosso amor por Ele. Como criaturas finitas, quem somos nós para limitarmos o amor de Deus, dizendo que Ele aceita o amor daqueles em um processo e não aceita o daqueles em outro? Movimentos Judeus que realizaram esse ponto assumiram a postura pioneira de reconhecerem a legitimidade de outros caminhos para se chegar a Deus, e o Conselho do Vaticano de 1965 diz que os Cristãos devem buscar apreciar o que há de bom e verdadeiro nas demais fés.
Isso não tem por fim dizer que as diferenças entres as tradições religiosas são meramente semânticas, ou que todos os caminhos são igualmente efetivos em conduzir-nos para o destino supremo. No movimento Hare Krsna, balanceamos nossa abertura às várias tradições religiosas do mundo com afiados questionamentos acerca do conteúdo de determinadas tradições. É preciso haver um critério base para se discernir verdades religiosas, mesmo que todas as principais tradições sejam aceitas em essência.
O que É Religião?
Em uma palestra pública no ano de 1972, Srila Prabhupada, de forma muito sensata, define a natureza da religião verdadeira:
“Na sociedade humana, há sempre algum tipo de instituição religiosa. Isso se chama dharma, fé. Como já foi explicado, dharma é o dever constitucional e funcional de cada indivíduo. A essência da verdadeira religião é a prestação de serviço a Deus. Nós, todavia, manufaturamos diferentes religiões na sociedade de acordo com o país ou as circunstâncias. [...] Pode-se praticar qualquer tipo de princípio religioso, mas o resultado deve ser a aquisição da perfeição. Talvez uma pessoa diga que está seguindo perfeitamente os princípios de sua religião, que são trazidos na Bíblia, no Corão, etc., e isso é muito bom, mas qual é o resultado? O resultado deve ser que a pessoa deseje cada vez mais ouvir sobre Deus”.
Enquanto conversava com meu tio Sidney, tais idéias norteavam meus pensamentos. Estando ciente de sua descendência Judaica (e da minha também), eu tentava trazer algo mais profundo. Eu estava falando sobre a prática de princípios espirituais. Eu não estava nem um pouco preocupado se chamamos tais princípios de Judaísmo, Cristianismo ou Hinduísmo. No ensinamento de Prabhupada, chamado de Vaisnavismo, essa essência espiritual se chama sanatana-dharma, ou a “eterna função da alma”. Essa tradição incentiva seus adeptos a se focarem no cerne da busca religiosa: amor por Deus. Ela enfatiza a qualidade da devoção, e não o rótulo de um caminho particular, como disse Prabhupada em uma conversa em Gênova em junho de 1974:
“Primeiramente, o que é qualidade? A qualidade do cristão é percebida por sua obediência ou não dos Dez Mandamentos. Se ele não os cumpre, onde está sua Cristandade? Assim é declarado guna-karma: pela qualidade e trabalho a pessoa se torna Cristã, Hindu ou Muçulmana. É preciso que exista a qualidade. E quando a espiritualidade se desenvolve, seja através do Cristianismo, do Hinduísmo ou do Islamismo – isso não importa – aí está a qualidade desejada... Portanto, nosso movimento existe para criar pessoas que amam a Deus, e isso é declarado no Bhagavatam: a religião de primeira classe é aquele que transforma seus seguidores em pessoas que amam a Deus”.
De acordo com Prabhupada, o caminho supremo é aquele que nos permite desenvolvermos amor por Deus. Se a pessoa não desenvolve esse amor, então a instituição religiosa não é nada senão uma distração à meta última da vida. Prabhupada baseia essa idéia no verso 1.2.6 do Srimad-Bhagavatam, possivelmente a mais profunda de todas as escrituras religiosas: “O dever supremo (dharma) de toda a humanidade é aquele pelo qual as pessoas podem obter o serviço devocional amoroso ao Senhor transcendental. Tal serviço devocional deve ser desmotivado e ininterrupto para a completa satisfação do Eu”.
Em outras palavras, há o que se chamaria de dharma externo (dever, religiosidade) e de dharma interno, e se o primeiro não conduz ao segundo, o primeiro deve ser descartado. Isso pode ser entendido pelo cuidadoso estudo do Bhagavad-gita: Krsna inicialmente instrui a humanidade a aceitar completamente o dharma. Ele diz que é com o objetivo de se estabelecer o dharma que Ele pessoalmente descende (Bg. 4.8) – mas, até então, Krsna se refere ao dharma externo. Quando o Gita começa a se aproximar de seu fim, Krsna finalmente sugere que abandonemos o dharma externo e tomemos refúgio nEle. (Bg. 18.66) Esse é o dharma interno. Como exemplifica o comportamento do meu tio, enquanto se calcula como praticar sua religião é muito freqüente deixar Deus de fora da equação. Assim, o Senhor Krsna diz de forma definitiva que seguir as tradições religiosas é importante, mas que o mais importante é se ater à essência da religião.
O que É, Definitivamente, Dharma?
O movimento Hare Krsna respeita e pratica o dharma como ele é enunciado nos antigos textos Védicos, mas enfatizamos a essência do dharma: amor por Deus. Em última instância, é isso que todas as religiões ensinam – adesão ao dharma externo mas com a consciência de esse é mero subserviente do dharma interno. Tal percepção deve ser adquirida para a compreensão do verdadeiro significado da busca religiosa.
Em Sânscrito, a palavra mais frequentemente usada para designar religião é, mais uma vez, dharma. Todavia, dharma denota mais do que uma doutrina que alguém se afilia para a expressão de determinada fé religiosa. Dentre suas diversas definições, dharma literalmente significa “a essência de uma coisa”. O dharma do açúcar é a doçura; o dharma do fogo é o calor; o dharma das entidades vivas é conhecer e amar a Deus. Em outras palavras, dharma é aquilo do qual um ser ou coisa não pode ser separado. Você pode mudar sua fé, a forma com que expressa sua religiosidade – um Judeu pode se tornar Muçulmano, que pode se tornar Cristão, que pode se tornar Hindu – mas você é sempre servo de Deus. Esse é seu verdadeiro dharma.
Talvez alguém proteste: “Eu não sou servo de Deus. Eu sou dono de mim mesmo. Eu não sirvo ninguém”. Se examinarmos cuidadosamente nossa vida, todavia, veremos claramente que somos sempre servos. Podemos servir Deus e, por extensão, a humanidade ou podemos servir nossa família ou nossos sentidos pessoais – mas somos servos por natureza. No estado condicionado da existência material, as entidades vivas servem o Senhor de forma indireta e desfavorável, enquanto que no estado liberado as entidades vivas servem o Senhor de forma direta e favorável.
Para exemplificar, todos no Estado servem o Estado. Alguns servem de forma direta e favorável, como os policiais, soldados, políticos, os cidadãos que pagam seus impostos etc., enquanto que outros servem de forma indireta e desfavorável, como os prisioneiros. Presos na prisão da natureza material, sob a supervisão de Durgadevi (a personificação da energia material), as almas condicionadas são forçadas a servir maya, ou ilusão, e, em troca de seus serviços prestados, elas são às vezes chutadas pelas cruéis leis da natureza e às vezes afagadas pelo seu carinho inconstante. As almas liberadas, que vivem na morada suprema do Senhor (o reino de Deus, nosso lar original), em contraponto, servem o Senhor diretamente em diversas variedades de rasas espirituais, ou relacionamentos transcendentais, e desfrutam de uma vida eterna, plena de conhecimento e de bem-aventurança na companhia da Suprema Personalidade de Deus, o reservatório de todo o prazer.
A Importância do Não-Sectarismo
Uma vez que Deus é um, a religião também deve ser uma. Essa religião comum, que recebe diversos nomes, é conhecida pelos indianos (e pelos devotos Hare Krsna) como sanatana-dharma, e é isso que eles se esforçam em praticar. Assim, sanatana-dharma, a religião do movimento Hare Krsna, não é um conceito sectário que tenta artificialmente rebaixar outras religiões e estabelecer sua supremacia com base nos conceitos mundanos de superioridade e inferioridade; senão que é a natural busca da alma espiritual pelo serviço e amor a Deus. É a essência – o dharma interno – de toda entidade viva.
O movimento Hare Krsna prega que as entidades vivas não são Cristãs, Judias, Hindus ou Muçulmanas, porque esses títulos são designações corpóreas. E, se isso estivesse claro na conversa que tive com meu tio, não teria havido nenhum desentendimento. As pessoas não são o corpo, mas sim a alma espiritual. Contudo, muitos acham que são cristãos, por exemplo, simplesmente porque nasceram em uma família cristã. Eles não consideram que na próxima vida – ou mais tarde na mesma – podem se tornar Budistas, Siques ou adeptos de qualquer outra religião. Novamente, um Cristão pode se converter em Judeu, ou um Hindu em Muçulmano – são todas designações temporárias do corpo e de crenças pessoais, designações que mudam, que têm começo e fim. Portanto, não são sanatana-dharma, a verdadeira religião eterna de todos.
Mas se uma pessoa encontra os princípios do sanatana-dharma nos ensinamentos do Cristianismo, do Islamismo, ou em qualquer outro lugar, ela deve aceitá-los sem considerar o rótulo ou o local de origem. Enfim, a religião Hare Krsna ensina o verdadeiro não-sectarismo, como estabelecido anteriormente, encorajando que as pessoas aceitem qualquer processo genuíno que as conecte com Deus, como afirma Prabhupada:
“Pode-se compreender nossa relação com Deus através de qualquer processo – através do Cristianismo, através da literatura Védica, ou através do Corão – mas tal assunto deve ser compreendido. O propósito deste movimento da consciência de Krsna não é transformar Cristãos em Hindus ou Hindus em Cristãos, mas informar a todos que o dever do ser humano é entender sua relação com Deus”.
A compreensão da existência de um dharma eterno, uma religião universal, é tão clara para Prabhupada que o conceito de sectarismo lhe parece absurdo:
“O que é sectarismo? Em todas as seitas a criança é dependente dos pais. O que se quer dizer com sectarismo? Quer-se dizer que a criança Hindu não é dependente de seus pais? A criança muçulmana não depende de seus pais? Todos dependem dos pais. Se ela é uma criança Hindu, uma criança Cristã ou uma criança Muçulmana, isso não importa. Essa é a natureza da criança. De forma similar, talvez você seja Hindu ou Muçulmano, mas você depende de Deus. Isso é um fato. Então, onde está o sectarismo? O Muçulmano pode dizer ‘Não, não. Não somos dependentes de Deus’? Os Cristãos podem declarar isso? Temos que pegar a condição geral: todos são dependentes de Deus. Onde está a questão do sectarismo? É como uma nuvem: todos estão esperando por chuva. Isso não significa que se espere por chuva Muçulmana ou chuva Hindu ou chuva Cristã. Toda chuva é dependente das nuvens. Isso é tudo. Hindu, Muçulmano, Cristão – não somos dependentes da nuvem. Por que declarar-se independente de Deus?”.
Prabhupada grifou a importância de se buscar a verdadeira religião em qualquer lugar que se possa encontrá-la, embora ele claramente expressasse sua fé pessoal na tradição Védica, a qual atribuía os predicados de “a mais abrangente e clara” e “os mais antigos textos conhecidos pela humanidade”:
“Se uma pessoa é séria quanto a buscar por Deus, ela não deve pensar ‘eu sou Cristã’, ‘eu sou Hindu’ ou ‘eu sou Muçulmana’. [Senão que] deve considerar qual processo é o mais prático. Não deve pensar: ‘Por que eu deveria seguir o Hinduísmo e as escrituras Védicas?’. O propósito de se seguir as escrituras Védicas é desenvolver amor por Deus. Quando estudantes vêem para a América em busca de educação superior, eles não se preocupam se os professores serão americanos, alemães ou de outra nacionalidade. Se querem educação superior, simplesmente vêem para a América. De forma similar, se há um processo efetivo para se compreender e se aproximar de Deus, como esse processo da consciência de Krsna, deve-se tirar o máximo de proveito”.
Converter em Quê?
Citações como a acima pedem reflexão: Prabhupada está recomendando alguma espécie de conversão? Ele vê sua tradição como sendo melhor do que outras?
Se pegarmos essa última citação juntamente com as demais, veremos que Prabhupada não está recomendando que pulemos de uma religião para a outra, mas que olhemos a fundo a verdade religiosa e vivamos nossas vidas de acordo. Claramente ele vê a tradição Vaisnava como mais inclusiva, e as escrituras Védicas como mais claras e objetivas; e ele certamente iria recomendar a uma pessoa – se se demonstrasse inclinada – a aceitar essas escrituras e tradição. Mas para que fim? Esse é o ponto crucial. Não é para aumentar o número de Hinduístas ou de adeptos de qualquer outra seita. Prabhupada está apenas pedindo para que as pessoas procurem um processo científico que culmine no amor por Deus. Se podem fazer isso através de alguma tradição sectarista, então que façam; mas ele recomenda o Vaisnavismo pois sabe que ele funciona.
Prabhupada diz:
“Sim, eu não digo que Cristãos devam se tornar Hindus. Eu apenas digo: ‘Por favor, obedeçam aos mandamentos”. Eu quero fazer dos Cristãos melhores Cristãos. Essa é minha missão. Eu não digo: “Deus não está na sua tradição; Deus está apenas na nossa”. Eu simplesmente digo: “Obedeça a Deus”. Eu não digo: “Você tem que aceitar que o único nome de Deus é Krsna”. Não, eu digo: “Por favor, obedeça a Deus. Por favor, tente amar a Deus”.
Assim, se os ensinamentos de Prabhupada falam sobre algum tipo de conversão, falam sobre converter pessoas do materialismo para o espiritualismo – e isso é tudo. Sua preocupação é que as pessoas pratiquem suas religiões de forma sincera e com entusiasmo. E como ele era pessoalmente praticante do dharma Vaisnava, ele estava confiante de que poderia ensinar a outros a fazerem o mesmo. Prabhupada não aceita as idéias de uma revelação exclusiva, de um povo escolhido, ou de um único salvador; por isso não pensa em termos de conversão. Ao contrário, afirma que Deus aparece em várias formas, tempos e locais para falar a língua da religião para todas as culturas e, assim, estabelecer os vários aspectos de Sua lei e de Seu amor. De acordo com Prabhupada, o amor de Deus pela humanidade é algo muito poderoso para ser restrito a um tempo, local ou cultura. Mesmo destacando o prestígio da tradição Vaisnava, os ensinamentos de Prabhupada são não-sectários. Ele não estava interessado em conversões, embora estivesse interessado em compartilhar a ciência Vaisnava de como desenvolver amor por Deus. Só desejo que meu tio Sidney possa entender isso.

p/ Satyaraja Dasa
Tradução por Bhagavan dasa (DvS)

segunda-feira, 3 de dezembro de 2007

O Remédio Prescrito


A audição sistemática das atividades transcendentais, qualidades e nomes do Senhor Sri Krishna nos impulsiona rumo à vida eterna. Audição sistemática significa conhecê-lO gradualmente, de verdade e de fato, e esse ato de conhecê-lO de verdade e de fato significa atingir a vida eterna, como se afirma no Bhagavad-gita. Essas atividades transcendentais e gloriosas do Senhor Sri Krishna são o remédio prescrito para neutralizar o processo de nascimento, morte, velhice e doença, que são considerados como as recompensas materiais para o ser vivo condicionado. A culminação deste estado perfectivo de vida é a meta da vida humana e o alcance de bem-aventurança transcendental.

Srimad Bhagavatam 1.18. 10 sig

sábado, 1 de dezembro de 2007

Austeridade da Mente



Tornar a mente austera é afastá-la do gozo dos sentidos. Ela deve aprender a sempre ficar pensando em fazer o bem aos outros. O melhor treinamento que a mente pode receber é pensar com seriedade. Ninguém deve se desviar da consciência de Krishna e todos devem sempre evitar o gozo dos sentidos. Purificar a própria natureza é tornar-se consciente de Krishna. Só se pode obter satisfação da mente afastando dela os pensamentos que produzem gozo dos sentidos. Quanto mais pensamos em gozo dos sentidos, mais insatisfeita fica a mente. Na era atual, oferecemos à mente muitos processos supérfluos de gozo dos sentidos, e assim não há possibilidade de a mente ficar satisfeita. O melhor procedimento é direcionar a mente para a literatura védica, que está cheia de histórias aprazíveis, como os Puranas e o Mahabharata. É possível aproveitar-se deste conhecimento e então purificar-se. A mente não deve ter duplicidade, e deve-se pensar no bem-estar de todos. Silêncio quer dizer que se vive pensando na auto-realização. Neste sentido, quem é consciente de Krishna observa silêncio perfeito. Controle da mente quer dizer afastar da mente o gozo dos sentidos. O homem deve ser honesto em suas atitudes e desse modo purificar sua existência. Juntas, todas estas qualidades constituem a austeridade própria das atividades mentais.

Bhagavad Gita 17.16 Sig