sábado, 26 de abril de 2008

Sri Sri Siksastakam



O Sri Sri Siksastakam são os únicos escritos de Sri Caitanya Mahaprabhu. Obviamente Ele instruiu Seus seguidores a escreverem livros para o benefício de todos os seres humanos. O Senhor Caitanya escreveu o Sri Sri Siksastakam no final dos Seus passatempos manifestos, quando estava em Divyonmada Mahabhava, a divina loucura de Srimati Radhika. Nos oito Slokas, Sambandha, Abhidheya e Prayojana Tattva são explicados através de Abhidheya. Siksa - instrucções. Astakam - oito. Portanto, o Sri Sri Siksastakam é a essência dos Vedas. É a essência de todas as instruções. É a essência de tudo. Tudo esta contido no Sri Sri Siksastakam.

1 - Sadhana de Harinama Sankirtana Hare Krsna Hare Krsna Krsna Krsna Hare HareHare Rama Hare Rama Rama Rama Hare Hare

2 - Inabilidade para o cantar

3 - Humor apropriado para o cantar

4 - Eliminar atividades indesejáveis

5 - O conhecimento que somos eternamente servos

6 - Ansiando a perfeição (ao desejar a perfeição o devoto(a) poderá servir melhor ao Senhor)

7 - Vipralambha (aspecto muito importante dado por Sri Caitanya. Somente com um forte sentimento de separação é que poderá ocorrer união)

8 - Incondicionalidade (o Senhor Caitanya mostra o verdadeiro amor à Deus - é incondicional) .

sexta-feira, 25 de abril de 2008

A Quantidade leva a Qualidade



Do "Harinama Cintamani" de Srila Bhaktivinoda Thakur.

"Se alguém é suficientemente ávido para obter devoção pura, cantará sem cometer as dez ofensas. Ele deve evitar diligentemente cada uma das dez ofensas com sentimentos de profundo arrependimento. Deve orar sinceramente aos pés de lótus do Santo Nome e cantar com determinação. Só então receberá a benção da misericórdia do Santo Nome o qual destruirá todas as ofensas. Nenhuma outra atividade ou penitência tem possibilidade de perdoar suas ofensas.
As ofensas ao Santo Nome do Senhor são dissolvidas unicamente mediante o canto constante.
Cantar constantemente, significa, com exceção de um tempo mínimo para descansar e outras escassas necessidades físicas, uma pessoa deve cantar durante todas as horas do dia com intenso arrependimento. Nenhuma outra penitência espiritual é tão efetiva como isto."

A Qualidade leva a Quantidade

Aqueles que são muito cuidadosos em cantar sem nama aparadha e com muita atenção gradualmente aumentam a quantidade do seu cantar.

Do "Harinama Cintamani", de Srila Bhaktivinoda Thakur:
"Por cantar com regularidade um número fixo de Santos Nomes com cuidado e atenção especiais, ele gradualmente progride até anuraga, ou a atração espontânea ao Santo Nome. Deve cantar um número prescrito de voltas numa Tulasi Mala e gradualmente com o tempo aumentar seu número de cantos do Santo Nome."

Do livro "A Arte de Cantar Hare Krsna" de SS Mahanidhi Swami:

"64 voltas - O Padrão da ISKCON

"Nós pedimos aos nossos estudantes para cantar 16 voltas como mínimo.
Dezesseis voltas não é nada. Em Vrndavana existem muitos devotos que cantam 120 voltas.
Então dezesseis voltas é o mínimo." (Srila Prabhupada - Aula 20/10/72)

Srila Prabhupada: "Assim como curar uma doença significa diminuir a febre. Este é o teste."

Devoto:"O que fazer se esta febre não diminui."

Srila Prabhupada:"Então deve tentar cantar o Mantra Hare Krsna, ao invés de dezesseis voltas, sessenta e quatro voltas. Este é o processo. Dezesseis é o mínimo. Haridas Thakur cantava 300.000 nomes diariamente. Portanto, você deve aumentar. É o único remédio. Se alguém tem determinação, fará avanço sem nenhum problema. Esta determinação é muito difícil. "Eu devo ser plenamente consciente de Krsna." (Srila Prabhupa 14/5/75)

"O misericordioso Senhor do amor, Prema Purusottama Sri Caitanya, esta facilmente oferecendo toda a perfeição em troca de algumas poucas voltas de Japa Mala. Pelo movimento de alguns dedos alguém pode atingir o tesouro mais valioso da criação. O Avatar Dourado de ilimitada compaixão, o Senhor Gauranga, esta a estender Sua doce e suave mão para comer das nossas mão purificadas pelo toque da Tulasi que foi contada sessenta e quatro vezes. Somos tão preguiçosos, caídos e tolos que deixamos esta magia divina passar por nós enquanto dizemos:

"Impossível, impossível, impossível!"

Tome força de Sri Guru e Gaurahari e tire a palavra "Impossível" do seu dicionário. O número de voltas "deve ser incrementado" de 16 por dia, para 20, para 32 até 64 voltas. Mas nunca diminua. Sessenta e quatro voltas é o número mágico para a paz, felicidade e toda a perfeição espiritual do amor à Deus.

Uma Aproximação Prática das 64 Voltas

Srila Puri Maharaja certa vez instrui-me de uma forma muito prática:

"Não é difícil cantar um Lakh (100.000 Nomes ou 64 voltas) por dia. Isto significa sentar-se quatro vezes por dia, duas horas cada! Ouça, você levanta-se as 4 a.m., canta até as 6 a.m., e assim canta 16 voltas. Então faça outras coisas, como banhar-se, Puja, Ler, e tomar um pouco de prasadam. Então sente-se e cante mais 16 voltas até ao meio-dia. Já são 32 voltas lá pelas 12:00 !!! Então sente-se mais duas vezes e termine 32 voltas pela tarde. É muito fácil. Você só precisa sentar-se quatro vezes, duas horas cada para cantar 64 voltas. Você ainda terá 16 horas para fazer outras coisas."

Pode não ser assim tão fácil como Puri Maharaja diz. Mas sempre que tivermos tempo e oportunidade deveremos tentar o nosso melhor para cantarmos 64 voltas do Maha Mantra Hare Krsna."

p/ Prahladesh das

quinta-feira, 24 de abril de 2008

Uma grande oportunidade



A vida de um ser humano é uma oportunidade para preparar-se para voltar ao Supremo, ou para livrar-se da existência material, a repetição de nascimentos e mortes. Os homens tolos esquecem-se desse fato da morte certa e negligenciam o dever de preparar-se para voltar ao Supremo. Eles arruinam suas vidas nas propensões animais de comer, beber, divertir-se e desfrutar. SB 1.19.4 sig

quarta-feira, 23 de abril de 2008

Aparente "zanga"


Urmila Devi Dasi (ACBSP), esclarece:

"...Quando estamos ensinando a consciência de Krsna, talvez tenhamos que apontar pequenas falhas em pessoas que estão no começo do caminho espiritual, mas, ainda assim, podemos motivar tais pessoas com sincero amor. Nossas críticas podem ser práticas e construtivas, destituídas de inveja ou ira..."

A aparente "zanga" de um Vaisnava ou Vaisnavi está repleta de amor sincero.

Do livro "As 26 Qualidades do Devoto" de SS Satsvarupa Dasa Goswami

Ira, krodha.A luxúria nunca pode ser satisfeita e, portanto, ela é seguida pela ira.A ira surge como uma irmã mais nova. Quando uma pessoa é dominada por ira incontrolável, ela é capaz de matar até mesmo seu melhor amigo ou parente querido.Quando a ira se espalha, todo o corpo fica poluído.Mas a ira também pode ser utilizada no serviço a Krsna, dirigindo-a contra os inimigos de Krsna.O exemplo famoso é Hanuman, o devoto guerreiro do Senhor Rama, que lutou contra os exércitos de Ravana. O Senhor Caitanya também demonstrou ira transcendental quando escutou que Jagai e Madhai tinham atacado o Senhor Nityananda.A ira devocional pode desta maneira apresentar-se sob a forma de luta. O devoto ksatrya não pode tolerar ver o devoto do Senhor ou pessoas ou criaturas inocentes sendo feridos.Maharaja Pariksit ficou zangado assim quando viu um sudra espancando uma vaca. Arjuna não estava zangado, e desta maneira, não podia lutar na Batalha de Kuruksetra. Por intermédio da pregação, Krsna incitou Arjuna a lutar com ira transcendental. Um devoto também pode dirigir sua ira contra os falsos gurus e outro enganadores do povo. Quando um devoto escuta propaganda contra o serviço devocional, ele pode escrever artigos contra esta propaganda ou pregar activamente de outra maneira.Hindus desinformados pensam que um sadhu nunca pode demonstrar ira. Tais pessoas não compreendem a ira transcendental. Evidentemente, a ira não deve ser descontrolada ou utilizada para combater um insulto contra si próprio.Certa vez uma cobra, depois de encontrar-se com Narada Muni, ficou muito pacífica. Mas quando os meninos da aldeia próxima souberam a respeito da não-violência da cobra, começaram a atirar-lhe pedras. Quando a cobra queixou-se a Narada que sua não-violência tinha ocasionado tais ataques, Narada a aconselhou a continuar pacífica, mas que ela se erguesse, mostrasse o capelo e assustasse as crianças para que elas fossem embora.Este é um exemplo da utilização da ira controlada.A ira deve ser controlada e só utilizada a serviço do Senhor.As vezes um professor assume um ar irado ou faz um gesto zangado para instruir um aluno. Ele ensina através de palavras bondosas, encorajamento e ocasionalmente por intermédio de punições e uma demonstração de ira. Mas esta ira é controlada, a ira só pode ser utilizada como um instrumento no serviço devocional.A ira também se manifesta num estágio muito avançado do serviço devocional como um tipo de apego extático em relação a Krsna; muitos exemplos disto são encontrados em "O Néctar da Devoção". Certa vez quando Krsna e Seus amigos retornavam das florestas de Vrndavana, os pastorzinhos contaram a mãe Yasoda que Krsna fora sozinho à floresta Talavana e matara Dhenukasura.Quando mãe Yasoda ouviu como os meninos haviam pedido a Krsna que fosse numa missão tão perigosa sozinho, ela ficou perturbada e olhou irada para os meninos.Em outra ocasião, quando na Assembléia Rajasuya o demônio Sisupala insultou Krsna, o primo de Krsna, Nakula falou com grande ira:"Se alguém zomba de Krsna, eu declaro que como um Pandava hei de chutar seu elmo com meu pé esquerdo, e que o ferirei com minhas flechas que são tão boas quanto yamadanda, o cetro de Yamaraja."

Fim da citação

Um Sadhu serve e elogia 100% um Uttama Mahabhagavata.Um Sadhu serve e elogia todos os outros devotos e quando necessário corrige-os.Assim como devemos ser humildes quando o Sadhu nos elogia, devemos também sê-lo quando nos corrige.

Existem diferentes categorias de devotos.No "Amrta Vani" Srila Bhaktisiddhanta Sarasvati Thakur explica:"Devemo-nos ocupar 100% no serviço do Mahabhagavata, 66,6% no serviço do Madhyama Bhagavata e 33,3% no serviço do Kanistha Bhagavata."

No livro "Divina Sucessão" de Rupa Vilas Dasa Adhikari páginas 220,221, da The Bhaktivedanta Book Trust International, edição de 2003 está escrito:As Palavras Afiadas do SadhuSrila Gaura Kisora Dasa Babaji Maharaja diz:"Por favor, notem que os sadhus que falam palavras afiadas para dissipar a energia ilusória são na verdade devotos verdadeiros de Krsna e amigos de todas as entidades vivas.Os seres vivos condicionados tendo experimentado o relacionamento litigioso com sua esposa e parentes próximos, é tratado rudemente por eles até a morte, mas eles nunca desejam abandonar a sua associação.Por outro lado, eles se tornam absortos em tentar apaziguá-los e servi-los.Mas quando um devoto do Senhor, que está sempre ansioso para que as entidades vivas alcancem o benefício último, as castiga apenas uma vez com instrucções que visam afastá-las de maya, então estas entidades vivas condicionadas imediatamente fazem planos para se afastarem desta pessoa santa por toda a vida.Se você realmente deseja prestar serviço devocional apropriadamente, então você deve aceitar as palavras ásperas de um sadhu como o remédio que pode afastar de maya.Assim, pode-se obter o avanço espiritual necessário para cantar o santo nome com sucesso.As almas condicionadas estão preparadas para aceitar abuso ilimitado dos seus membros familiares, mas nem uma simples palavra áspera de um sadhu que deseja livrá-las de seu apego pela existência ilusória.A esposa e os parentes materialistas induzem o homem a trabalhar como um asno enquanto o aborrecem por não satisfazer completamente todas as suas exigências.Entretanto, apesar da família viver importunando o homem legitimamente e tratá-lo asperamente até que ocorra uma falha da sua parte, esta vítima aquiescente não é capaz de tolerar as palavras que podem alertá-lo quanto à realidade da situação."Srila Bhaktisiddhanta Sarasvati Thakur descreveu o poder do sadhu num ensaio chamado "A Procura da Verdade", da seguinte maneira:"Não há dúvidas de que as palavras de um sadhu têm o poder de destruir as propensões maléficas da mente das pessoas.Os sadhus estão sempre beneficiando todos aqueles que se associam com eles.Existem muitas coisas que não revelamos a um sadhu.O verdadeiro sadhu nos faz falar sobre aquilo que mantemos escondido em nossos corações.E então ele aplica a faca.A própria palavra "sadhu" quer dizer faca.Ele fica diante do local onde será feito o sacrifício com a faca em sua mão.Os desejos sensoriais dos homens são como cabras.O sadhu fica ali e mata estes desejos com o misericordioso golpe da pontiaguda faca sacrificial na forma de uma linguagem desprazeirosa.Se o sadhu começa a me adular e não me recrimina, ele se torna meu inimigo. Se ele nos adula, então seremos conduzidos pela estrada que leva ao desfrute, mas não ao verdadeiro bem-estar."

Fim da citação.


Siddhajana Prabhu esclarece:

"Como um mestre espiritual Mahabhagavata, por um lado ensina seus discípulos a abandonar a ira e a luxúria, duas coisas que o próprio Krsna no Bhagavad Gita diz serem a causa da existência material, e por outro lado mostra ira e fúria?

Isto é uma interpretação errada.

Não devemos interpretar que Srila Prabhupada tenha se tornado irado e furioso sobre alguma coisa.
A melhor interpretação e que ele tornou-se agitado e/ou desapontado pois mesmo após ter dado tantas instrucções, seus discípulos continuavam a fazer disparates.

Seu propósito era ensinar seus discípulos e não destruí-los.

A conotação das palavras "ira" e "feroz", porque elas contém o modo da ignorância ou a natureza destrutiva da energia material, poderiam ir contra o Vaisnava Siddhanta puro, que o mestre espiritual pode corrigir seus discípulos sem o uso dos três modos da natureza material.
Ele usa as potências Cit, Samvit e Hladini; em outras palavras, ele usa a natureza transcedental para ensinar e corrigir seus discípulos, e nunca a natureza material e os modos da ignorância e da paixão."

p/Prahladesh Dasa

sexta-feira, 4 de abril de 2008

segunda-feira, 24 de março de 2008


"O esplendor do sol, que dissipa a escuridão de todo esse mundo, vem de Mim. E o esplendor da lua, e o esplendor do fogo também vêm de Mim." BG 15.12

sábado, 22 de março de 2008

Os Passatempos Escolares do Senhor Caitanya



Um professor inovador, um estudante erudito e o mestre da argumentação. O Senhor Caitanya exibiu a vida ideal.

Navadvipa dhama, a terra sagrada dos passatempos do Senhor Caitanya, está situada a aproximadamente 95 quilômetros a noroeste de Calcutá. Ali, a medida que a foz em delta do Ganges começa a se formar, os diferentes afluentes do rio circundam uma área de 50 quilômetros quadrados e a divide em nove ilhas. Navadvipa significa “nove ilhas”. Ali, a Suprema Personalidade de Deus, o Senhor Caitanya, residiu pelos primeiros vinte e quatro anos de Seu aparecimento neste mundo.

Navadvipa é tradicionalmente conhecida como um centro de educação formal. Antigamente, muitos sanscritólogos eruditos se reuniriam em Navadvipa para discutirem a literatura Védica, e, porque esses eruditos também eram grandes devotos da Suprema Personalidade de Deus, os tópicos que eles discutiam seriam sempre centrados nas instruções do Senhor Krsna no Bhagavad-gita ou em Suas atividades registradas no Srimad-Bhagavatam. Hoje, a cidade de Navadvipa mantém sua tradição de educação formal e devoção a Krsna, e muitos versados devotos do Senhor Caitanya residem neste local de peregrinação onde o Senhor apresentou Seus passatempos estudantis.

De acordo com o sistema social Védico, é responsabilidade dos brahmanas, ou intelectuais, guiar a sociedade tanto espiritual quanto intelectualmente. Os deveres de um brahmana são estudar a literatura Védica, ensinar a literatura Védica, adorar a Deidade, ocupar outros na adoração à Deidade, aceitar caridade e dar caridade. O Senhor Caitanya nasceu em uma família brahmínica, e, em tenra idade, aceitou o primeiro dever de um brahmana de estudar a literatura Védica. O profundo estudo do Senhor foi a principal atividade de Sua juventude. Srila Vrndavana dasa Thakura, que escreveu o Caitanya-bhagavata, uma biografia do Senhor Caitanya, chega até mesmo a devotar seis capítulos a descrever os passatempos do Senhor como um jovem estudante.

As regras gramaticais e as definições da língua sânscrita são extremamente intricadas, e se sugere que se estude esse ponto por doze anos antes de progredir para tópicos mais avançados. A gramática sânscrita é considerada o portão de entrada para os estudos, porque, uma vez que ela é dominada, todas as escrituras Védicas e outras literaturas sânscritas se tornam facilmente compreensíveis. Mas o Senhor Caitanya aprendia essas regras imediatamente, após ouvi-las uma única vez. Porque Ele logo começou a ganhar muitas competições gramaticais entre os estudantes, o título pandita, que significa “uma pessoa muito erudita”, foi atribuído ao Senhor, que passou a ser conhecido como Nimai Pandita. À medida que Sua reputação de estudioso erudito crescia, Ele começou a atrair estudantes que queriam estudar sânscrito sob Sua direção. O Senhor, então, começou a cumprir a segunda obrigação brahmínica, a de ensinar, muito embora Ele tivesse apenas onze anos de idade.

O Senhor Caitanya frequentemente Se sentaria às margens do Ganges discutindo tópicos literários com Seus estudantes. Uma noite, um grande erudito chamado Keshava kashmiri se encontrou com o Senhor Caitanya ali. Keshava Kashmiri, que pertencia a uma família brahmínica muito respeitada da Kashimira, estava viajando por diferentes centros de estudo por toda a Índia debatendo as literaturas Védicas sânscritas com os estudantes. A arte de se debater na língua sânscrita é extremamente rigorosa. Todos os temas devem ser examinados em termos de cinco categorias, incluindo fidelidade ao propósito do texto original, lógica, exemplos dados em termos de vários fatos, compreensão do tema – de maneira clara ou não –, e embasamento a partir de citação das escrituras autorizadas. Como um homem de vasta erudição, Keshava Kashmiri era o campeão invicto neste tipo de debate. Assim, ele carregava o título de Digvijayi, que significa “aquele que conquistou a todos em todas as direções”. O debatedor campeão havia agora vindo até Navadvipa com a esperança de aumentar sua reputação derrotando os estudiosos dali.

Naquela época, os debates não eram meros exercícios acadêmicos, senão que o perdedor era obrigado a se tornar discípulo do vencedor. Esse fato assustou os estudantes de Navadvipa. Eles tinham o plano de fazerem uma disputa entre o Senhor Caitanya e Keshava Kashmiri. Eles consideraram que, se o Senhor fosse derrotado, eles teriam outra chance de debater com o erudito, pois, afinal, o Senhor Caitanya era apenas um garoto. Mas se o Senhor derrotasse o erudito, a posição deles seria ainda mais gloriosa pelo fato de um mero garoto de sua comunidade acadêmica ter derrotado o campeão invicto.

Keshava Kashmiri sabia da reputação do Senhor Caitanya como um erudito sanscritólogo, mas, estando muito orgulhoso de sua brilhante carreira pessoal, ele se considerou muito superior ao Senhor. Assim, quando eles se encontraram nas margens do rio Ganges, Keshava Kashmiri falou asperamente com o Senhor. Com muita perícia, ele criticou o Senhor Caitanya insinuando que o “malabarismo gramatical” que o Senhor ensinava a Seus estudantes não exigia muita destreza. O Senhor Caitanya, que age de diferentes maneiras para o benefício das almas condicionadas, respondeu ao erudito de forma a aumentar seu prestígio artificial. O Senhor Se apresentou em uma posição subordinada e pediu ao erudito para ele demonstrar sua perícia poética compondo versos em glorificação ao Ganges.

Keshava Kashmiri era devoto da deusa da sabedoria, Sarasvati, e, sendo favorecido por ela, era bastante confiante de suas habilidades intelectuais. Ao pedido do Senhor Caitanya, ele imediatamente compôs cem versos glorificando o Ganges e eloqüentemente os recitou diante do Senhor Caitanya e Seus alunos.

Após ouvirem a convincente apresentação de Keshava Kashmiri, o Senhor Caitanya falou de forma a refrear o orgulho que Ele havia previamente incentivado. Glorificando de forma sarcástica o poeta, o Senhor, que havia memorizado todos os cem versos, repetiu o sexagésimo quarto verso e pediu para Keshava Kashmiri explicá-lo. O erudito, embora espantado pelo Senhor Caitanya ter memorizado um dos versos rapidamente citados, explicou o significado do verso. O Senhor Caitanya então lhe pediu para explicar os pontos positivos e as falhas do verso.

O orgulhoso poeta ficou nervoso. “Você é apenas um estudante ordinário de gramática”, ele disse. “O que Você sabe sobre adornamentos literários? Você não pode analisar esse poema, pois Você não sabe nada sobre isso”. O Senhor Caitanya novamente Se submeteu humildemente a Keshava Kashmiri e respondeu: “Certamente Eu não estudei a arte de adornar composições literárias, mas Eu ouvi sobre isso dos círculos mais elevados, e posso, portanto, analisar esse verso e apontar muitas falhas e muitos pontos positivos nele. Permita-me dizê-los, e, por favor, escute-Me sem se irritar”.

O Senhor Caitanya explicou então cinco ornatos literários e cinco falhas no verso. O Senhor analisou as falhas no verso em termos de composição imprópria, significados contraditórios e redundância. Ele em seguida glorificou o verso por seus ornatos de aliteração, analogia e significado. O Senhor concluiu: “Eu discuti apenas as cinco faltas grosseiras e cinco ornatos literários deste verso, mas, se o considerarmos em seus detalhes, encontraremos ilimitadas falhas. A explanação do Senhor Caitanya havia sido tão completa, mesmo Ele tendo ouvido o verso apenas uma única vez, que Keshava Kashmiri ficou assombrado. Quando ele tentou replicar os comentários do Senhor, ele não foi capaz de encontrar palavras para se expressar. A confiança dele em sua inteligência foi aniquilada. Seu orgulho deu lugar à insegurança.

Keshava Kashmiri havia se tornado muito orgulhoso, considerando-se invencível devido ao seu vasto conhecimento, mas seu orgulho só serviu para confundi-lo. A posição verdadeira da entidade viva é de dependência do Senhor Supremo. No Bhagavad-gita, a Suprema Personalidade de Deus explica que todo conhecimento, lembrança e esquecimento vem dEle. O orgulho de Keshava Kashmiri o fez ignorante dessa verdade, mas o Senhor Caitanya demonstrou grande misericórdia para com ele contendo seu orgulho e lhe dando dessa maneira a oportunidade de obter conhecimento transcendental.

Voltando para casa, Keshava Kashmiri adorou Sarasvati, a deusa da sabedoria, desejando saber qual ofensa havia cometido a ela para ser derrotado por um jovem garoto. Aquela noite, mãe Sarasvati apareceu para o erudito em um sonho e lhe revelou que o Senhor Caitanya era a própria Suprema Personalidade de Deus. Keshava Kashmiri pôde então entender sua posição como servo eterno do Senhor. Na manhã seguinte, Keshava Kashmiri foi ver o Senhor Caitanya e imediatamente se rendeu a Ele. O Senhor, assim, concedeu Sua misericórdia ao erudito, liberando-o do orgulho que lhe fazia cativo à vida material. Daí em diante, Keshava Kashmiri abandonou a ocupação de vencer campeonatos e se tornou um grande devoto do Senhor.

Após este incidente, o Senhor Caitanya foi aclamado como o mais importante erudito de toda Navadvipa. De fato, ele começou a debater e a derrotar todos os tipos de estudiosos dos discursos das escrituras Védicas. Mas, por causa de Seu comportamento gentil, nenhum deles ficava infeliz.

Aos dezesseis anos de idade, o Senhor dirigia Sua própria escola. Em concordância com Sua missão como a encarnação desta era, o Senhor ensinava gramática sânscrita através da Consciência de Krsna. Ele explicava as regras e definições em relação com Krsna , induzindo dessa forma Seus estudantes a cantarem os santos nomes de Deus. O propósito do Senhor era que Seus estudantes e todos nós realizássemos que não há nada em nossa experiência senão Krsna.

Durante este período, Srila Isvara Puri visitou Navadvipa. Isvara Puri era o mais querido discípulo do grande sannyasi seguidor de Srila Madhvacarya, Srila Madhavendra Puri. O Senhor Caitanya se aproximou de Isvara Puri neste tempo e ouviu a recitação de seu livro Krsna-lilamrta. Posteriormente, enquanto em Gaya, o Senhor novamente Se encontrou com Isvara Puri, e, aceitando-o como Seu mestre espiritual, foi iniciado por ele.

Apesar da reputação do Senhor Caitanya como um acadêmico erudito, Isvara Puri o repreendeu. “Você é um tolo”, ele disse. “Você não é qualificado para estudar a filosofia Vedanta, por isso Você deve sempre cantar os santos nomes de Krsna, simplesmente cante os nomes de Krsna. Nesta era de Kali, não há outro princípio religioso além do cantar do santo nome, que é a essência de todos os hinos Védicos”. Recebendo esta ordem de Seu mestre espiritual, o Senhor Caitanya imediatamente exibiu sintomas de êxtase de amor por Deus.

Isvara Puri atuando como mestre espiritual do Senhor Caitanya e o Senhor Caitanya atuando como o discípulo ideal nos instruem que é unicamente através da iniciação apropriada que é possível para as almas condicionadas amarem a Deus. No Bhagavad-gita, a Suprema Personalidade Deus nos instrui a nos aproximarmos de um mestre espiritual autêntico se sinceramente desejamos conhecimento transcendental e amor por Deus. O segredo do sucesso na vida espiritual está neste sistema de sucessão discipular. A pessoa pode ser um grande erudito ou um tolo iletrado, mas, seguindo o Senhor Caitanya e recebendo instrução de um mestre espiritual autêntico, todos podem obter esse amor por Deus que o movimento de sankirtana do Senhor está distribuindo.

Todas as glórias ao Senhor Caitanya Mahaprabhu! Todas as glórias a Srila Prabhupada!

Biógrafos do Senhor Caitanya dividiram Sua vida em três períodos. O período que consiste em Seus primeiros vinte e quatro anos, durante os quais o Senhor Caitanya residiu em Navadvipa, perfazem os passatempos de Seu nascimento, infância, juventude e casamento. Esse período de vinte e quatro anos é conhecido como adi-lila.

Ao término de Seus vinte e quatro anos, o Senhor Caitanya entrou na ordem renunciada, sannyasa. Durante esse período de Sua vida, madhya-lila, ou passatempos intermediários, o Senhor viajou continuamente por seis anos. Partindo de Sua sede principal em Jagannatha Puri, na Orissa, Ele fez peregrinações ao Sul da Índia, à Bengala e a Vrndavana.

Pelos últimos dezoito anos de Sua vida, o Senhor Caitanya permaneceu fixo em Jagannatha Puri, onde exibiu Sua antya-lila, ou passatempos finais. Ali, na companhia de Seus associados íntimos, Ele pessoalmente desfrutou do amor por Deus cantando o mantra Hare Krsna e dançando em êxtase.

p/ Sesa Dasa
Tradução por Bhagavan dasa (DvS)